Portal Pop3

It’s Okay to Cry: o nascimento e epílogo de SOPHIE

Após cinco anos "nos bastidores", SOPHIE se destacou como intérprete na obra-prima It's Okay to Cry, seu primeiro e último trabalho como protagonista.

Publicado em 4 de março de 2022, por PROMO SAMPLE - A História de uma Música

Seria possível um artista nascer após quase cinco anos de carreira? A resposta é sim quando analisamos a carreira de SOPHIE, produtora que revolucionou o som underground e foi uma das responsáveis pela popularização do gênero Hyperpop. Ela pode passar despercebida por um breve momento e até menosprezada por aqueles que consideram o “Pop Conceitual” um ultraje à música, mas garanto que vale a pena observar sua breve carreira, interrompida em 30 de janeiro de 2021, quando SOPHIE faleceu.

Hoje irei contar a história do single “It’s Okay to Cry”, lançado em outubro de 2019 e recebido com aclamação. Tal qual um filme Whodunit — ou “Quem matou Odete Roitman?” — os fãs da produtora finalmente puderam conhecer oficialmente o rosto, a voz e a performance da artista, que até então aparecia somente em suas discotecagens. 

SOPHIE

Sua atuação na música começou nos anos 2000, quando participou do grupo Motherland. Com músicas independentes liberadas no Soundcloud, o grupo permaneceu na ativa até 2009. Após a experiência, a artista adotou oficialmente o nome artístico SOPHIE e debutou na música com a música “Nothing More to Say”, lançado em 2013. O single foi postado na conta da gravadora independente Hustely Palmers, que atua no Reino Unido. Em sua primeira entrevista, ela cita:

“Eu tento fazer músicas que sejam divertidas para dançar […]
Acho que seria extremamente emocionalmente se música pudesse levá-la no mesmo tipo de passeio de 3 minutos  de alta emoção como uma montanha-russa de parque temático.”
(Tradução livre – supervisão de Wanessa Camargo)

Mesmo possuindo quase 10 anos de existência, “Nothing More to Say” consegue sintetizar o trabalho que SOPHIE viria futuramente fazer. O Synthpop ganha uma mixagem com tons agudos, estranhos e diferentes, que podem lembrar clássicos dos anos 1970 e 1980, mas causam a sensação de ser algo completamente novo e futurista. E esta não é uma combinação feita à toa. A artista possuía ligação direta com a gravadora independente PC Music, conhecida por apresentar artistas que carregam em sua discografia um som barulhento, com incontáveis camadas de ruídos sonoros e um resultado quase irônico, que reinventa e brinca com o Pop Dance. A seguir, apresento “Hey QT, uma parceria de A.G. Cook, SOPHIE e Hayden Dunham que poderia facilmente ser um comercial com um jingle chiclete, que gruda por tantos anos quanto “Pôneis Malditos”. 

Os lançamentos na assinatura SOPHIE entre 2013 e 2015 foram reunidas na compilação “PRODUCT”, contando com canções como “BIPP”, “LEMONADE” e “MSMSMSM”, que representam uma faceta estranha, divertida, dançante e confusa, parecendo desafiar constantemente o que definimos como pop tradicional e dance. 

Continuamente, o trabalho da artista varia entre autotunes exagerados e acelerados, batidas que parecem vir de uma panela de pressão e sons que simulam bolhas de sabão, tendo de mais estranho o quão intrigantes conseguem ser. A compilação está disponível nas plataformas digitais, e recomendo que escute em um estado não tão sóbrio.

Além das próprias produções, SOPHIE sempre colaborou com outros artistas em produções e remixes que se tornaram clássicos cult (ou trash) da música pop. Sua versatilidade e identidade podem ser identificadas em canções como “Bitch I’m Madonna” de Madonna, “Nights Wih You” de MØ e o EP “Vroom Vroom” de Charli XCX, este último sendo um ponto de virada na carreira de Charli XCX, amiga e grande colaboradora de SOPHIE. 

Mesmo com diversos lançamentos e colaborações, a figura da artista era um mistério para quem não a pesquisasse a fundo. A única forma de saber quem era SOPHIE seria comparecendo em suas discotecagens. Oficialmente, não existia Photoshoot ou Videoclipe que registrasse seu rosto. Isso até 19 de outubro de 2017. Vamos falar da música que motivou este artigo?

IT’S OKAY TO CRY, ou “Pode chorar, vei”

A figura misteriosa de SOPHIE chegou ao fim em outubro de 2017, quando o videoclipe deIt’s Okay to Cry foi lançado em seu canal no YouTube. Finalmente era revelado ao público a figura por trás das inúmeras canções que marcaram o pop alternativo ao longo dos anos. E assim como Pânico e Vale Tudo, It’s Okay to Cry concluiu um mistério e iniciou o terceiro e último ato da carreira de SOPHIE.

Logo nos primeiros segundo do vídeo, SOPHIE está vagando por um céu estrelado, se preparando para o primeiro verso. Sendo o primeiro vídeo da carreira, “It’s Okay to Cry” soa como um chute do armário em que ela vivia: antes tratada na mídia pelo nome falecido, a artista agora revelava ser uma mulher trans: Sophie Xeon.

I don’t mean to reproach you by saying this
I know that scares you
All of the big occasions you might have missed
No, I accept you
And I don’t even need to know your reasons
It’s okay
I think you sometimes you forget 
I would know you best

Na música, a artista parece conversar com o seu próprio eu, sem entender sua identidade. Em falas como “Apenas saiba que você não tem nada a esconder, tudo bem chorar”, o acolhimento, sabedoria, experiência e empatia da artista consigo mesma torna “It’s Okay to Cry” como um hino para aqueles que buscam entender sua identidade ou possuem receios quanto seu gênero. A montanha russa de ritmo agora passaria a ser uma montanha russa emocional.

O tom de voz usado pela artista ao discorrer sobre a letra é interessantíssimo. Ela flerta um spoken word em tons calmos que ora conversa, aconselha ou nos revela a vulnerabilidade que ela sente em sua trajetória. O refrão da música, que chega com um pequeno barulho e sons que soam cristais mágicos vindos de um conto de fadas. A vontade de abraçar a artista e se permita chorar, independente do que esteja passando em sua vida pode ser uma ótima forma de entender os motivos de tantas pessoas admirarem a artista.

No sonoro, “It’s Okay to Cry” lembra as baladas dos anos 1990, melancólicas e bregas-lindas-motivacionais, como “You Gotta Be” de Des’ree. O toque futurista ao longo da canção a torna um pouco menos brega, claro. Nota: amo Des’ree, desculpa aos fãs por te chamar de brega-linda-motivacional. 

Sendo primeiro single do seu álbum OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES, o impacto de “It’s Okay to Cry” foi muito além de 2017. SOPHIE se tornou a primeira mulher trans a ser indicada ao Grammy, na categoria Melhor Álbum de Música Eletrônica. Três anos depois, a música ganhou uma versão estendida e ainda mais mágica. Esta nova versão foi apresentada na Louis Vuitton Spring-Summer 2020 Fashion Show, sendo um dos ápices na carreira. Ao longo de 13 minutos, esta seria uma das últimas contribuições de SOPHIE em nosso planeta.

Em 30 de janeiro de 2021, a gravadora Transgressive publicou uma nota anunciando o falecimento da artista:

“De forma trágica a nossa bela Sophie morreu essa manhã após um terrível acidente. Verdadeira com sua espiritualidade, ela havia escalado para ver a lua cheia e acidentalmente escorregou e caiu. Ela sempre estará aqui conosco. A família agradece todo mundo pelo amor e apoio e pede privacidade nesse período devastador”

A notícia, pega de surpresa, deixou um final aberto para sua carreira musical. Havia um novo álbum em produção, colaborações engavetadas (como a aguardada música com Lady Gaga) e um futuro que parecia ser tão interessante e mágico quanto sua discografia até então. Para nós, restou aceitar que estava tudo bem chorar.

(SOPHIE/Reprodução)

Embora não seja o último trabalho de SOPHIE, “It’s Okay to Cry” pode ser interpretada como a última obra-prima de sua rápida vida na Terra e seu trabalho definitivo. SOPHIE nasceu publicamente nesta canção e ela se tornou — infelizmente — um epílogo da sua contribuição à música e arte, e a forma como encaramos seu impacto na cultura pop deve ser vista assim como no videoclipe: ela está por aí, viajando pelos céus, atingindo aqueles que terão sorte de esbarrar em uma das maiores artistas deste século. Os sons cristalinos com a letra que aconselhará e acolherá não possui data de validade e merecia estar exposta no Museu do Louvre. Seu impacto está longe do fim, e eu espero que mais pessoas se sintam tão maravilhados quanto eu, que carrego “It’s Okay to Cry” como uma das minhas canções favoritas da vida. 

Tags: , , , , ,
Quando criança e no auge da internet discada, imitei a performance de "Naked" das Spice Girls em Istambul na cadeira do computador. Minha mãe entrou no quarto e viu a cena, foi constrangedor. Não veja essa performance no YouTube.